Currículo para vagas de tecnologia sem virar sopa de letrinhas
Como listar stack, projetos, GitHub, certificações e inglês no currículo de dev, dados, QA e infra, com exemplos de experiência para júnior e sênior.
Currículo de tecnologia tem um problema próprio: a tentação de listar tudo. Toda linguagem já tocada, todo framework de tutorial, toda ferramenta de projeto de faculdade. O resultado é um bloco de 40 siglas que não diz o que a pessoa sabe fazer. Quem seleciona (tech lead, gestor ou recrutador técnico) aprende a desconfiar disso.
O currículo que funciona para dev, dados, QA ou infra é o que mostra profundidade em poucas coisas e contexto de uso. Não é sobre quantas tecnologias você conhece, é sobre o que você construiu com elas.
Como listar a stack
Separe por profundidade, não por ordem alfabética
Em vez de uma lista única, agrupe em dois ou três níveis honestos:
Uso no dia a dia: TypeScript, React, Node.js, PostgreSQL, Git Já usei em projetos: Python, Docker, AWS (S3, Lambda), Redis Estudando: Kubernetes, Go
Esse formato responde à pergunta que o entrevistador vai fazer de qualquer jeito ("em qual dessas você está mais confortável?") e evita a situação constrangedora de ter "Java" no currículo e não saber responder uma pergunta básica na entrevista técnica.
Corte o que não sustenta uma conversa
Regra prática: se você não consegue falar cinco minutos sobre a tecnologia sem consultar nada, ela não vai na primeira faixa. Se só fez um tutorial, não vai no currículo. Lista curta e verdadeira é melhor do que longa e que desmorona na primeira pergunta.
Adapte à vaga
Se a vaga pede React e você tem React na terceira linha do bloco, suba para a primeira. Se pede algo que você não tem, não invente. O artigo sobre currículo e palavras-chave para ATS explica como espelhar os termos do anúncio sem forçar.
Projetos e GitHub
Para quem tem pouca experiência formal, projetos são a experiência. Para quem já é sênior, são um diferencial que mostra interesse além do trabalho. Em ambos os casos, o link sozinho não basta. Ninguém vai abrir 15 repositórios para descobrir qual presta.
Escolha dois ou três projetos e descreva cada um em duas linhas: o que faz, com o quê foi feito, e o que tem de interessante tecnicamente.
Controle de gastos pessoais (github.com/usuario/gastos) API em Node.js com autenticação JWT e PostgreSQL, front em React. Deploy automatizado com GitHub Actions. Cobertura de testes acima de 80% nas rotas principais.
Antes de colocar o link, arrume a casa: README com instruções de como rodar, repositórios abandonados arquivados ou privados, commits com mensagens legíveis. O perfil do GitHub é lido como uma extensão do currículo, e um perfil bagunçado atrapalha mais do que nenhum perfil.
Se você não tem projeto nenhum, faça um antes de aplicar. Não precisa ser grande. Precisa estar funcionando, ter testes e resolver um problema pequeno de ponta a ponta.
Certificações
Certificação vale quando é reconhecida no mercado e quando está ligada à vaga. AWS, Azure, Google Cloud, Scrum, ISTQB para QA, CCNA para redes, certificações de segurança. Essas entram, com nome completo e ano.
O que não entra: certificado de conclusão de curso online curto, badge de plataforma de exercício, "curso de HTML de 10 horas". Isso não é certificação, é estudo. Se quiser mencionar cursos longos ou relevantes (um bootcamp, uma formação de meses), coloque na seção de formação, não em certificações.
Nível de inglês
Em tecnologia o inglês é quase sempre requisito, e o recrutador vai testar. Então seja preciso:
- Leitura técnica: você lê documentação e código sem dificuldade, mas não conversa. Diga isso.
- Intermediário: acompanha reuniões e escreve mensagens, com esforço para falar. Diga isso.
- Avançado: participa de reunião, faz code review em inglês, apresenta. Diga isso.
- Fluente: trabalha em inglês o dia inteiro sem prejuízo.
Escreva de forma específica em vez de só o nível:
Inglês avançado: reuniões diárias com time nos Estados Unidos, documentação técnica e code review em inglês.
Quem se declara "fluente" e trava na entrevista em inglês perde a vaga na hora. Quem se declara "intermediário" e se sai bem ganha pontos. Se você está aplicando para vaga fora do país, o artigo sobre como fazer currículo em inglês cobre o formato completo.
Como descrever a experiência
A lógica é a mesma de qualquer currículo, ação + contexto + resultado, mas em tecnologia o contexto inclui a stack e a escala do sistema. Compare:
Antes: Desenvolvimento de funcionalidades no sistema da empresa.
Depois: Desenvolvi o módulo de notificações do sistema de pedidos (Node.js, RabbitMQ, PostgreSQL), que processa mensagens de milhares de pedidos por dia com retentativa e fila de erro.
O artigo sobre como descrever experiências no currículo aprofunda a fórmula. Abaixo, dois exemplos completos de seção de experiência, um para cada nível.
Exemplo para dev júnior
Desenvolvedora Júnior — Loja Virtual XYZ — mar/2025 a atual
- Implementei telas do painel administrativo em React e TypeScript, seguindo o design system do time e com testes de componente em Testing Library.
- Criei endpoints REST em Node.js para relatórios de vendas, incluindo paginação e filtros por período.
- Corrigi bugs reportados pelo suporte, priorizando com o tech lead e documentando a causa de cada um no repositório.
- Participei de code review dos colegas e passei a revisar pull requests de outros juniores após três meses.
Repare: nenhuma linha diz "aprendi muito" ou "ajudei o time". Cada uma descreve algo que a pessoa entregou, com a tecnologia usada, no nível esperado de alguém que está começando.
Exemplo para dev sênior
Engenheiro de Software Sênior — Fintech ABC — jan/2022 a atual
- Liderei a migração do monólito de pagamentos para serviços em Go e Kubernetes, reduzindo o tempo de deploy de horas para minutos e permitindo releases independentes por time.
- Desenhei a arquitetura de eventos com Kafka que hoje processa as transações de todos os produtos da empresa.
- Mentorei quatro desenvolvedores plenos e juniores, com plano de evolução individual e pareamento semanal.
- Estabeleci a política de observabilidade (logs estruturados, tracing e alertas), que reduziu o tempo de diagnóstico de incidentes em produção.
Aqui o foco muda: decisões de arquitetura, impacto no negócio, pessoas. A stack aparece como contexto da decisão, não como lista.
Adaptações por área
- Dados: destaque o tipo de problema (previsão, classificação, ETL, dashboard), o volume de dados e o impacto para quem usou o resultado. Ferramentas (SQL, Python, Spark, Power BI) entram como contexto.
- QA: diferencie testes manuais de automatizados, cite as ferramentas (Cypress, Playwright, Selenium, Postman) e mostre resultado: bugs encontrados antes da produção, cobertura, tempo de regressão.
- Infra e DevOps: fale de escala (quantos serviços, quantos ambientes), disponibilidade e automação. Cloud, IaC (Terraform, Ansible) e CI/CD são o centro.
- Mobile: especifique plataforma, linguagem, se o app está publicado e quantos usuários atende.
O que evitar
- Gráficos de barra ou estrelinhas para nível de habilidade. Não significam nada e quebram a leitura automática.
- Foto, a menos que a vaga peça. O artigo sobre foto no currículo explica o motivo.
- Modelos de duas colunas com ícones: muitos sistemas de triagem embaralham o texto.
- Listar "Windows, Word, Excel" em currículo de dev. Presume-se.
- Escrever "conhecimento em" antes de cada tecnologia. Basta o nome.
Antes de enviar, confira se cada tecnologia listada aparece em pelo menos uma linha de experiência ou projeto. Se está só na lista, ou você a usa e esqueceu de contar, ou não usa e deveria tirar. Para uma verificação rápida, dá para analisar seu currículo com IA. E se preferir montar do zero em um modelo limpo, de uma coluna, é só criar currículo grátis.